JUROS UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA
Texto: Hugo Leal
Se um brasileiro vendesse sua casa por R$100 mil, em junho de 1995, e aplicasse esse dinheiro em um fundo de renda fixa, teria a sua disposição no banco, 10 anos depois, R$ 821 mil. Se outro brasileiro, naquele mês, pegasse R$100 mil emprestados ao mesmo banco para comprar uma casa estaria devendo, 10 anos depois, R$ 134 milhões. A conta foi feita pela revista época, em julho, e não há erros no resultado: 134 milhões de reais é a quantia que o cidadão estaria devendo – na verdade, a dívida seria executada antes, o banco tomaria sua casa e ele estaria falido e sem condições de garantir as condições mínimas de alimentação, saúde e educação para sua família.
Exatamente esta é a situação do Brasil, após 10 anos de arrocho na política monetária, com a taxa básica (Selic) de juros mantida pelo banco central em níveis recordes e os juros cobrados pelos bancos particulares na estratosfera. O Governo Lula, eleito para promover mudanças no país, rendeu-se a lógica neoliberal adotada pelos dois governos do PSDB.
A taxa de juros tornou a única arma para manter a inflação baixa, mais a alta permanente da Selic endivida cada vez mais. Os números são, mais uma vez, assustadores: o Governo Lula pagou de juros R$ 299,00 bilhões, de janeiro de 2003 a setembro de 2005.
Mas essa tragédia brasileira tem aspectos ainda mais perversos do que aumentar a dívida do governo. Os juros altos impedem o crescimento do país e promovem a transferência de renda dos trabalhadores e dos setores produtivos para os bancos. As grandes empresas se protegem da maneira que podem: trocam investimentos na produção, que geram empregos, por aplicações do mercado financeiro, onde o faturamento é mais alto e mais certo. A falta de investimentos provoca recessão: cortam-se postos de trabalho e salários, os trabalhadores consomem menos, o que prejudica o comércio e indústria, que cortam empregos e custos, num trágico círculo vicioso.
Os trabalhadores não têm como se proteger dos juros altos, mesmo porque as taxas cobradas pelos bancos aos clientes comuns são muito mais altas do que os 18% ao ano da Selic do Banco Central. Pesquisa publicada pelo Jornal do Brasil mostra que os juros do cartão de crédito estão em 222,86% ao ano, do cheque especial em 158%, nas compras no comércio 103,97%, do empréstimo pessoal nos bancos em até 258%.
É realmente trágico: a alta dos juros atinge diretamente os trabalhadores, as empresas produtivas e o Governo. Só quem lucra é o setor financeiro. Após dois anos e meio de gestão do PT na economia, as instituições bancárias lucraram R$ 92,9 bilhões - mais até do que no governo tucano. É, por isso, que, como qualquer brasileiro endividado e com juros a pagar, o Governo Lula não tem dinheiro para aplicar na saúde ou na educação. Só uma profunda mudança na política econômica pode garantir os recursos que o país precisa para crescer e melhorar a vida dos brasileiros. E isso na acontecerá com um governo mais preocupado em pagar US$ 15 bilhões de dólares ao FMI do que aplicar verbas para consertar estradas e ampliar programas sociais.